A terra parou, mas o tempo não para

Por Filipe Gimenes de Freitas

Depois de alguns dias em que quase todos estamos reclusos em nossos lares, um amigo de longa data me manda uma mensagem com uma pergunta um tanto quanto inusitada: “- Como saber se devo me divorciar ou se ainda há chance?”

Depois do questionamento sincero do amigo e de uma conversa franca que tivemos, pudemos sentir que os primeiros dias em que nos achávamos num filme de ficção científica já passou, pois agora temos a certeza de que a ficha caiu e precisamos tocar as nossas vidas em tempo de crise e, ao contrário de um filme ou seriado, ela não durará apenas algumas horas.

Precisamos ter em mente que Deus nos ensina sempre e há tempo para tudo, conforme passagem famosa bíblica (Eclesiastes 3:1-3): “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de demolir e tempo de construir…”

Se pudéssemos trazer para o linguajar contemporâneo, diríamos que estamos em TEMPO DE FAXINA. O Criador é tão perfeito que, em poucos dias, a loucura do corre-corre frenético cessou para muitos, a poluição produzida por infindáveis veículos circulando deu uma trégua, a balbúrdia que se dava nas ruas calou-se, enfim, o mundo iniciou sua autodepuração e, consequentemente, fomos levados a olhar para dentro de nós.

Lembremo-nos das palavras de Jesus (Marcos 4:22): “Porque nada há oculto que não deva ser descoberto, nada secreto que não deva ser publicado.” As nossas máscaras estão caindo e, nesse momento de crise, não devemos ficar mais mentindo para nós mesmos.

No entanto, o COVID-19 foi um instrumento dolorido, mas necessário para que comecemos uma faxina em nossas vidas, haja vista que as distrações do mundo lá fora foram suspensas por tempo indeterminado.

Então, um relacionamento que estava precisando de uma boa faxina e era empurrado com a barriga, nesse momento, é colocado à prova na simples necessidade de dividirem-se as tarefas do lar, pois saltará aos olhos se existe companheirismo, parceria ou tapeação.

Todos nós, de forma consciente ou inconsciente, sentimos com a pandemia a fugacidade da vida, a efemeridade do nosso corpo e a fragilidade de nossa saúde. Por isso, despertamos para a realidade de não mais ficar perdendo tempo com o que não nos traz felicidade ou não alimenta a nossa alma.

Muitos dizem que Raul Seixas foi profético em sua canção ao compor: “O dia em que a terra parou”. No entanto, o que me tocou mais nesse momento foi uma canção de Cazuza que, para mim, nunca tinha feito real sentido até hoje, pois pareciam simplesmente frases desconexas: “A tua piscina tá cheia de ratos Tuas ideias não correspondem aos fatos O tempo não para”

Essa frase de Cazuza encaixa-se perfeitamente com o que estamos vivendo nesse instante, pois o nosso lar interno está cheio de sujeiras e nossas ideias não correspondem ao que estamos vivendo e, enquanto isso, o tempo não para; o mundo até parou, mas o nosso tempo não.

Vemos que quase tudo desacelerou-se, mas a necessidade de nossa faxina interior acelerou-se o suficiente para que possamos fazer uma limpeza no que realmente importa em nossa vida, porque, como diz o compositor – o tempo não para – e precisamos ser felizes agora.

Mais do que nunca, precisamos ver se a nossa piscina está cheia de ratos que a tornam imprópria para o mergulho da depuração de nossa alma e para as necessárias braçadas em busca da felicidade eterna. É como se Deus concedesse tudo isso como uma abençoada oportunidade de reflexão e nos dissesse: Filhos, separemos o joio do trigo!

E, então, como saberemos se a nossa piscina está cheia de ratos? Ora, se diante das adversidades do mundo não vemos solução; se o desespero, a desesperança e o pânico habitam a nossa mente o tempo todo, então precisamos retirar as sujeiras invisíveis do nosso interior com o único remédio que existe: O AMOR!

Muitas vezes não sabemos diferenciar o que é o joio e o que é o trigo em nossa vida. Contudo, é momento de vermos o que é o joio das paixões e o que é o trigo do amor. Muitos relacionamentos foram construídos em ilusões passageiras enquanto muitos outros solidificaram-se nos pilares do amor.

Por isso, nesse momento em que parece que o nosso relacionamento não tem mais solução, recorramos ao apóstolo Paulo (Coríntios 13:4-8) e digamos se o que sentimos é o que o ex-perseguidor do Cristo nos define como o sentimento mais nobre que existe:
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha;”

Aproveitemos essa chance dada pela Suprema Inteligência do Universo para que recomecemos a nossa vida, larguemos o que nos adoece e limpemos de nosso coração todo sentimento que não estiver de acordo com o que realmente é o amor.

Até há alguns dias achávamos que a nossa vida era como uma série com inúmeras temporadas que sequer foram lançadas, mas acordamos hoje na certeza de que pode ser apenas um curta-metragem.

Por isso, é tempo de pegarmos a vassoura da sinceridade e varrermos para fora o que nos entristece; é tempo de passarmos o pano do perdão por cima das mágoas existentes; é tempo de jogarmos o alvejante do amor nas dores do passado, enfim, façamos a única faxina que Deus não pode fazer por nós.

Ah, e para aqueles que ficaram curiosos sobre o desfecho da história do meu amigo, apenas posso dizer que é mais uma das infinitas ocorrendo agora no mundo em que para os letreiros subirem e aparecerem em letras garrafais “O FIM”, teremos que antes aprender, vivenciar e atuar nos palcos da vida eterna a maior lição do universo: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO VOS AMEI.

Filipe Gimenes de Freitas é palestrante sobre o evangelho, espiritualidade e autor do livro “Cristão do Terceiro Milênio”. É presidente do Instituto Cisco de Deus que atende crianças carentes em Mato Grosso.

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