À flor da pele

Por Filipe Gimenes de Freitas

          Quando temos a sensação real e bem de perto de nossa inescapável e inegociável condição de finitude, começamos a colocar para fora muitos anjos e demônios que habitam o nosso íntimo.

          Ninguém é só fortaleza emocional ou então apenas ruínas de sentimentos frágeis, porque somos todos seres humanos nessa construção interminável pela busca de nossa perfeição possível a criaturas rumo ao Criador.

          Não importa se temos religião, se somos agnósticos, céticos, descrentes ou qualquer outro rótulo, porque todos nós, sem exceção, temos sentimentos e surgimos da mesma fonte criadora, para uns foi Deus, para outros o acaso, mas mesmo quem discorda de que haja uma fonte Divina, concorda que todo mundo veio do mesmo princípio, não importando a forma de criação.

          Há relatos jornalísticos que atestam que astronautas, que foram à lua, voltaram diferentes, porque viram a fragilidade e a pequenez que é o nosso mundo, então essa experiência radical os fez enxergar a vida de outra forma.

          A sensação de proximidade da morte nos faz rever conceitos, focar em questões que realmente importam e descartar apegos efêmeros e passageiros desse mundo que temos hora para chegar e para partir.

          Estamos vivenciando um momento em que, coletivamente, nunca houve tantas pessoas com a mesma sensação de que a morte pode estar tão perto. E, então, começamos a intensificar a batalha conosco mesmo, entre o homem velho e o homem novo, conforme famosa citação do apóstolo Paulo (Efésios 4:22-24).

          O grande problema é quando achamos que os defeitos do mundo só estão nos outros e nunca em nós. Quando achamos que os governantes, a sociedade, o vizinho, o fulano ou o beltrano precisam mudar e nós temos, apenas, que exigir essa transformação para que o mundo seja melhor.

          Estamos no mesmo barco chamado Terra e o vírus que assolou o planeta não escolhe classe social, raça, ideologia, religião ou qualquer outro rótulo que o mundo nos deu, porque somos feitos da mesma carne e respeitamos os mesmos princípios da natureza; mesmo nenhum corpo sendo igual ao outro, todos podem sucumbir a qualquer momento por algo que os faça parar de funcionar.

          A finitude física nos faz despojar do que não nos agrega em nada, nos faz enxergar o que as distrações do mundo nos enganavam e do que a nossa consciência nunca deixou de nos acusar, mas fingíamos que não era conosco.

          Portanto, o momento é de olharmos para nós mesmos; tudo que há no mundo de ruim pode ser um exemplo para que curemos dentro de nós e tudo de bom pode ser um exemplo para que aprendamos a vivenciar.

          O que não podemos é ficar parados, inertes e vendo o bonde passar à nossa frente sem que optemos ou não por embarcar nessa viagem de aprendizado através do nosso próprio mergulho interior.

          Estamos com os sentimentos à flor da pele, então agradeçamos, porque isso nos faz enxergar mais claramente os nossos defeitos e as nossas qualidades e podemos optar por qual lado alimentaremos e qual iremos deixá-lo mais frágil e incapacitado de nos dominar.

          Uma pessoa comum pega uma laranja azeda e se entristece por só poder fazer um suco sem graça. Uma pessoa sábia vê a mesma laranja e se alegra ao poder ter as deliciosas opções de fazer um doce, uma geleia ou um bolo.

          Nessa pandemia, lembremo-nos de que o suco azedo das lamentações é apenas a receita mais óbvia e menos agradável que possuímos.

Filipe Gimenes de Freitas é palestrante sobre o evangelho, espiritualidade e autor do livro “Cristão do Terceiro Milênio”. É presidente do Instituto Cisco de Deus que atende crianças carentes em Mato Grosso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s