As sementes da banana

Por Maria Carolina Borges Dal´Magro

Eu deveria ter apenas 11 anos quando minha mãe estava na cozinha fazendo sua famosa salada de frutas e observando que eu estava atenta a cada detalhe de seu manuseamento, me disse algo curioso: Nos próximos 15 anos, não mais veremos as sementes da banana.

Fiquei estarrecida com aquela afirmação, ao mesmo tempo em que ela continuava suas previsões dizendo que no futuro a ciência ganharia um espaço tamanho no mundo que haveriam frutas fabricadas em laboratórios e que o homem seria substituído por máquinas.

Para uma criança de 11 anos era inadmissível imaginar que algo semelhante pudesse acontecer, senti medo, um frio na barriga e até imaginei em minha doce inocência que o mundo poderia acabar até lá.

Essa história me deixou um tanto quanto intrigada naquela época, não mais veríamos aqueles pontinhos pretos dentro da banana? Impossível! Jamais viveríamos num universo tão superficial a ponto de serem fabricadas bananas de laboratório, pensei eu, ao mesmo tempo em que saboreava aquela fruta, olhando atentamente para pontinhos que naturalmente deveriam sempre estarem ali.

Passaram-se 14 anos, quando num belo dia, enquanto mordiscava um pedaço de banana, num súbito, aquela mensagem armazenada inconscientemente em minha tenra memória, voltou pertinente naquele momento, e voltei-me para aquela tão saborosa fruta na ânsia de constatar a veracidade da informação que outrora foi-me dita. Para minha surpresa as sementes da banana não mais estavam ali. Era oficial. Acabaram-se as sementes da banana.

Corri para contar a minha mãe que aquele insight tão pontual se cumpriu depois de tantos anos, mas ela com um sorriso no rosto disse-me que já não mais se lembrava de que havia dito algo parecido. Percebi então que aquela informação tinha um valor profundo e único para aquela criança de 11 anos atrás, que remotamente estava presente ali, diferentemente para ela que talvez tenha me tido aquilo, como em tantas outras vezes em que jogamos conversa fora.

Naquele momento pensei, o que fizemos nesses anos todos? e de repente já se foram 15 anos desde aquela conversa, onde as tardes eram acalentadas pelo pôr do sol que tão reverentemente se punha em nossos lares. Voltávamos uns para os outros como quem quisera saber os porquês do dia e os mistérios da noite ao passo em que partilhávamos da chegada das reluzentes estrelas que inebriavam o céu aberto, entre o nosso varal trançado.

Na medida em que me percebi analisando para onde foram as sementes da banana, voltei-me a lembrar de tantas outras coisas que já não mais as vejo e pude sentir o cheiro e o sabor de algo tão puro de algum tempo em que já não encontro mais.

O que será que aconteceu com os nossos dias, cheguei a pensar, e numa simples análise ao meu redor, pude entender que nos encontrávamos brindando nossos avanços e correndo contra o tempo para adquirirmos os lançamentos do mundo tecnológico: tablets, iphones e o que dizer então da TV fininha que ressurgia.

As bananas perderam suas sementes com o passar do tempo e nós sequer notamos a falta delas, assim como temos passado desapercebidos por aquilo que tem um valor inestimável. Nos fizeram crer que quanto mais mecanismos de facilidade houvesse, mais tempo teríamos, mas parece que há uma escassez do tempo que a cada dia passa mais veloz. Será que diminuíram nosso tempo também, ou talvez esqueceram de nos contar que para toda essa facilidade haveria uma dívida a ser acertada diariamente.

Perdemos o caminho de volta para casa e talvez essa seja a resposta para as causas espirituais e emocionais dos atuais dias, que por vezes nos impulsa a desejar viver os tempos da infância, a brincar na terra molhada e de nos lambuzarmos sem reverências; a contemplar o céu azul anil, ao som da melodia dos passarinhos que pontualmente anunciam o amanhecer e o entardecer do sol.

A verdade é que o que tem valor se esvai com facilidade, e de repente as luzes se apagam e os olhos se fecham. Por isso, valorize a vida, com os seus pequenos detalhes. Ela passa dia após dia por nossos olhos sem que consigamos contemplar suas tão belas e maravilhosas nuances.

Aproveitar a vida vai muito além de correr atrás para ter ou possuir. Há coisas que o dinheiro não compra e que se perdermos não conseguiremos novamente possuir.

Aproveite a beleza da vida e contemple as coisas disponíveis ao seu entorno, antes que num lapso de tempo você tenha notado que não mais existem as sementes da banana.

Ufa, o céu ainda continua azul! Lembra-se??

Até os próximos 15 anos…

Maria Carolina Borges Dal´Magro
Assessora Jurídica. Atuou na área criminal da 5ª Vara Criminal (efeitos gerais), 11ª Vara Criminal (audiências de custódia), 14ª criminal (cartas precatórias) todas de Cuiabá, 2ª Vara da Infância e Juventude (atos infracionais) e Vara Única de Poconé. Tribunal do Júri. Audiências admonitórias, justificação e instrução. Atualmente, atua como Assessora técnica jurídica da Presidência do Detran-MT (área correicional).

3 comentários sobre “As sementes da banana

  1. Aí Carolzinha, você é de uma sensibilidade tamanha. Me lembrei de tanta coisa que nem me atentei que perdi no meio do caminho, realmente a tecnologia é algo que se não usado moderadamente atrapalha nossas relação

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  2. Parabéns Carol a vivência e o aprendizado são enriquecedores. Continuidade menina linda e talentosa. Abraço carinhoso da Cine Maria. 🤗🤗🤩😘😘

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