ENTRE A EMOÇÃO E O SENTIMENTO

Por José Marcelo

Nossas emoções andam por caminhos incontroláveis, selvagens e sem possibilidades de domínio, são automáticas e desencadeiam uma gama incontável de ações internas (processo neurobiológico). Impressionante que essa dinâmica de sinalizações e movimentos multiformes, involuntários (do ponto de vista racional), ocorre em milésimos de segundo de forma natural, avaliando o ambiente circunscrito, buscando a reação evasiva ou adaptativa, originando os sentimentos.

Esses sim podem ser controlados, aliás, devem ser controlados, os sentimentos levam em si uma “carga” de racionalidade, que permite uma instantânea reflexão de nossos atos, traçando entre o limiar do instinto e do razoável uma diretriz de conduta imediata, discernindo a melhor oportunidade.

No fluir de emoções, os sentimentos, por vezes contaminados pela sua origem, desejam extravasar por meio de atitudes, quando essas são impensadas, são também, fatalmente, insensatas; entre a emoção e o sentimento há um pequeno, ínfimo lapso temporal, que pode fazer o raciocínio adentrar e tomar conta, inflexionando a atitude, moldando a reação, pacificando o conflito, exaurindo o confronto, tão pouco tempo para se pensar, mas no exato prazo para o domínio próprio (autocontrole) cumprir sua missão. Mas como controlar os sentimentos? Qual a receita? Eis aí uma retórica inexistente, pois a dificuldade existe, muitas vezes pela carência de bom senso.

Melhor do que livros de autoajuda ou palestras motivacionais, são as “marcas” deixadas pela vida, “cicatrizes” das experiências vividas, que nos fazem trilhar novos rumos. Nossas escolhas são nelas baseadas, pois possuem um significado sublime, o qual nos fazem enxergar em parte o que somos e o que podemos ser, nos ajudam a ter atitudes…

As “marcas” da vida fazem toda a diferença, porque a maestria do autocontrole será desenvolvida com base nessas experiências, aos aprendermos sobre empatia, colocando-se no lugar do outro, conhecermos sobre nós mesmos, interiorizando-nos ao ponto de chegarmos a nossa essência, desvendando-nos, pois temos a resposta dentro de nós. A partir daí é possível exercer o domínio próprio, juntando boas escolhas com atitudes adequadas e coerentes a cada circunstância, a cada desafio da vida.

As escolhas: são uma via de mão-dupla, pois tanto devemos escolher o que se agrega (input) como aquilo que sai de nós (output). O que entra vem como informações que a cada instante devemos filtrar com a menor medida possível de peneira, assim o que chegará ao nosso intelecto, transformando-se em conhecimento, será proveitoso na criação de significados na nossa existência, consolidando nossa experiência, quebrando crenças limitantes, construindo novos paradigmas. O que sai de nós, gera atitudes, essas decisões devem formatar uma busca pela melhor condição humana. Somos conhecidos por nossos atos, não por nossas intenções; nossas ações permeiam o mundo físico e as intenções moram no campo imaginário e não impactam as pessoas, por isso tão importante é o output das escolhas, visto que elas deixarão nosso legado, nossa “escrita” abstrata na vida de outros.

Os significados: não percebemos o todo, isso é um fato, e por não conhecê-lo analisamos em parte, julgamos em parte e proclamamos veredictos em parte; essas abstrações regularmente concebidas por nossas emoções, e continuadas por nossos sentimentos, coadunam com a sensação de superioridade, por determinar com base em nossa limitada visão aquilo que é certo ou errado.

Por esse motivo, torna-se importante buscar o todo, conhecer a história por trás da estória[1] (ou vice e versa), sentir o que o outro sente (novamente a empatia) e ver com os olhos alheios (nós vemos como somos e não como as “coisas” verdadeiramente são), só assim teremos um aperfeiçoamento de nossas atitudes, desmistificando nossos dogmas, eliminando uma miopia latente, perversa e nociva, que cria limites e obscurece o caminho.

As atitudes: essas são o reflexo de nossas escolhas e do significado de tudo que nos rodeia, incluindo aí nossos valores e crenças, nossas linguagens, nossas influências externas de amigos e parentes, como disse Shakespeare[2]: “Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos”. Sim, somos responsáveis, não deixando esvair nossa culpa, somos protagonistas de nossa história, escrevendo com nossas ações e reações, uma biografia única, individual e pormenorizada, em um palco de só um ator…  Eu.

Nossas experiências nos conectam as escolhas, significados e atitudes, são a base, o ponto inicial para a possibilidade de equilíbrio entre emoções e sentimentos, portanto devemos cultivar o amor, a esperança e a fé, para que nossas marcas sejam otimistas e possam nos fazer trilhar por boas escolhas, por significados virtuosos, suficientemente capazes de gerar empatia, e por atitudes equilibradas, não tomadas apenas por emoções, mas sopesadas pela razão e com o requinte de sentimentos afetuosos.

[1] Narração de fatos imaginários, de ficção.

[2] Em sua obra “O Menestrel”, William Shakespeare.

José Marcelo é Auditor Público Externo do TCE-MT.

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